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Vagão das treze

  • Foto do escritor: Benjamin
    Benjamin
  • 22 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Marcelo já estava no seu assento quando três adolescentes entraram no vagão. Eles já tinham visto o rapaz enquanto fumavam do lado de fora. Ao entrarem, sentaram-se um ao seu lado, outro em frente, e o terceiro no banco da fileira ao lado, cercando-o em todas as direções, como se quisessem continuar a vigília, ameaçando sua paz de espírito. Uma postura intimidadora que gerou um clima de tensão absurdo. “O que é que eles querem comigo?” Pensou. Disfarçadamente pausou a música de seus fones e ficou atento, enquanto os três conversavam sobre assuntos aleatórios.

Eram jovens que pareciam estar voltando da escola, porque um deles estava com o uniforme escolar, o outro com a camisa pendurada no ombro e o terceiro com uma regata. O horário de almoço confirmava tal possibilidade. Com o corpo trêmulo por dentro, tentava disfarçar o medo em sua postura ereta, forçando uma cara de quem parecia não se importar com aquela chegada intimidadora.

Antes da partida do trem, entrou mais um garoto. Era um ambulante. Sentou-se em outro assento próximo e os quatro se cumprimentaram.


– Já na atividade? Perguntou um deles.

– Ainda chefe, tenho que ganhar o dinheiro pra patroa né?! E continuaram a conversa.


Mesmo com a chegada do amigo ambulante, um ar de incertezas ainda pairava ao redor de Marcelo. Tanta coisa poderia lhe acontecer naquela viagem... Até que o trem fez sua primeira parada. Entre os passageiros que entraram, um trio de músicos se apresenta e canta a primeira música. O cantor pega seu microfone quebrado, funcionando na medida exata para ser usado no trem.


“Se você não entende, não vê

Se não me vê, não entende

Não procure saber onde estou

Se o meu jeito te surpreende


Se o meu corpo virasse Sol

Minha mente virasse Sol

Mas só chove, chove

Chove, chove...”


No refrão o vagão inteiro já estava cantando junto. Aquela canção veio como banho refrescante, ameniando tudo ali dentro. Enquanto cantavam, alguns o contemplavam – dentre eles os meninos à sua volta – outros apenas continuavam sua viagem.


“Se um dia eu pudesse ver!!!! Meu passado inteiro

E fizesse parar de chover!!! Nos primeiros erros, ah..”


“O que seria da minha vida se isso fosse possível?” Pensou. Marcelo era uma bicha machucada pela vida, cansado de ter sempre que reagir e lutar pela dignidade da sua existência. Ele também se derramou naquela canção, deixando que aquelas águas que passavam em forma de notas musicais levassem embora sua chuva de dentro.

Após agradecerem e passarem o chapéu, terminada a apresentação, aos poucos o vazio de sons e vozes foi dando lugar às propagandas dos ambulantes do trem. Cada qual anunciando sua mercadoria. O ritmo dos versos parecia ter sido uma apresentação de abertura ao que seguiria, preparando o clima para as vendas, alargando os corações espremidos pela hostilidade da vida. Deu lugar a uma harmonia sonora e visual de outros vai-vem. Cada chamado qual dissonante do outro.


– Água, água, água mineral, com gás e sem gás! – cantou um vendedor.

– Mais alguém?? – disse outro.

– Eu que pintei pô, metade da parede de cinza e outra metade de branco. Mano, fiquei duas semanas naquele escritório. – Contava um rapaz sentado no banco de trás.

– Dois reais, dois reais!!! Pensa não que tá barato!

– Dinheiro, cartão! – outros vendedores anunciavam.


O vagão para na estação seguinte, mais pessoas chegam para a sinfonia. Marcelo desce, salvo pela música, mesmo sem saber ao certo do quê. Os outros seguiram em direção aos respectivos destinos. Olhando para a mensagem pixada no muro “centenas vão centados, milhares vão em pé”, voltou para casa naquele dia pensando em quanta história pode caber em uma viagem de trem.

 
 
 

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