Eremita
- Benjamin

- 16 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Vatapá, omolokun, acarajé. Banho de pipoca que a gente come. Festa-ebó. Quentura no corpo inteiro. O silêncio de Omolu invade, preenche com todas as palavras que não podem ser ditas, pois vêm de dentro.
É nesse silêncio que meu espelho desembaça, e eu consigo sair no sol ao avesso. Percebo tantas coisas... Vejo minhas feridas. Deixar o sol entrar é como sentir cada uma delas. Tem como se expor sem senti-las? É sempre um risco, que deve ser medido. Afinal, não há como viver a vida se escondendo de si mesmo. E você faz tanto isso...
Quando vejo, ainda pareço um pouco descompromissado comigo mesmo. Eu escuto a voz na cabeça, mas a boca não fala. E cada frase vai virando um riacho. Quando vejo, uma cachoeira dentro de mim, de palavras não ditas, sentimentos presos, línguas caladas.
Não dá, simplesmente. Acho isso muito errado, nem sempre o silêncio evita estresse.
Às vezes o silêncio concorda.
PARA DE FINGIR QUE VOCÊ CONCORDA!
PARA!
Para com isso, pra ontem, pra hoje. Isso te faz tão mal...
Se o silêncio te trai, então não era para estar ali.
O silêncio nunca deve nos trair. Ele justamente precisa o contrário. O silêncio testifica. Nele encontram-se todas as palavras, aquelas exatas, nunca desmedidas, sempre necessárias.
O silêncio nunca é mudo, nunca. Mesmo quando nada diz, como aquele presente na meditação, que ausenta todos os pensamentos. Ele testifica: tudo já está sendo dito! Cada vida e cada som, mesmo o barulho do ar quando não tem vento.
Tudo diz porque nada fala. Porque nos obriga a escutar e jogar fora, deixar as palavras irem embora até que nada seja. Até que nada se pense. Até que seja possível sentir o lugar de cada coisa e tudo fluindo ao mesmo tempo, porque silêncio é escuta, e nisso reside minha resistência em escrever.
Porque a palavra deve ser flecha que atravessa o tempo e leva embora consigo aquele que maneja o tom. Porque o lápis afina a letra e abaixa o som. Porque escrever não faz sentido mesmo que compulsivo seja. Porque eu não quero escrever, não tenho mais nada a dizer não queria por um segundo sequer afastá-lo de mim para o mínimo de jus fazer, nada que não fosse além do prazer de me deixar e ir fazer dessas letras rio, sem caminho.
Só caminho por onde as águas passam. Silêncio é seu vizinho. Senhor do grão que junto a terra monta, argila profundeza. Quanta história e milagre cabem aqui, tanto até o centro plastificado e maleável, que por mistérios nos faz sorrir. Perseguir a grandeza de desconhecer, só não esquecer de que ainda nada se sabe daqui.
Palavra é flecha que atravessa o tempo e leva embora consigo aquele que maneja o tom. No fim tudo é música, som. Matéria e cor. Tudo amor... Alimento.




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