E se eu nunca mais escrever?
- Benjamin

- 12 de mar.
- 2 min de leitura
Por um segundo, enquanto sublinhava algo no livro que estou lendo, me imaginei lá na frente como alguém que desistiu de escrever. Como se a escrita fosse algo que que eu pudesse evitar, que meus dedos por acaso pudessem se esquecer.
Sim, a leitura é um devir para a escrita, porque ler é escrever junto, mesmo que só em pensamento ou sublinhando linhas. O risco da letra não termina na folha, porquanto viaja céus da boca e olhos marejados. A letra mastigada nutre e o cocô são novas palavras, outras quaisquer, como tudo que entra pela boca e deve sair pelo cu (ou dedos). Quando leio em voz alta, quando elas penetram os olhos, ouvidos, pele, pela lágrima escorrida e o riso saltado, cada expressão facial e do meu corpo, que encontra a paisagem depois que termino uma frase e preciso olhar fora, sair do mundo literário e deixá-las decantando um pouco aqui dentro, depois disso e tanto mais, os dedos querem expelir os vestígios da viagem no papel.
Às vezes um risco, um poema, uma frase.
No entanto, outras vezes parece que meu corpo evita essa livre passagem das palavras viajadas que poderiam, em algum momento, chegar ao papel. Nessas vezes em que as palavras não chegam ao seu destino e ficam meses no estado de dormência, eu chego a perguntar, como estou suportando tal (não) feito? O que acontece no entremeio dessa linha que atravessa o papel e o corpo? Estou escondendo algo de mim? Que diabos é isso que não estou contando, não estou deixando saber? É como se elas se perdessem de si.
Mas, será que o papel deve ser sempre o destino delas? Lanço essa outra pergunta porque venho percebendo um fenômeno nessa viagem das letras entre corpo, linha e papel: o da decantação. A falta das palavras no papel, mesmo aquelas erradas, às vezes me parece um estado de latência, como se estivesse febril. Como se a doença tivesse me acometido. E volto à pergunta: e se eu nunca mais escrever?
Mas, e se eu já estiver escrevendo?
Nesse tempo percebo uma nova 'mania' do meu corpo. No silêncio majestoso das minhas rotinas solitárias, às vezes vomito uma ou outra página no papel, num tom choroso-lamentoso-lamoso, daqueles que não me orgulho contar pois odeio dar chance qualquer para que sintam pena de mim. Sim, tem sua beleza ora pois, o belo é também subjetivo. Mas é uma beleza interiorana, poucos vão lá. Deixando umas lágrimas contornadas na tinta azul eu largo o papel e vou dormir, preciso trabalhar. Passa uns dias e saio para correr. Já no caminho das pernas ganharem velocidade as palavras voltam todas quase que num estado de gozo, aquelas palavras tristes ganham o brilho do suor, e eu me dou conta:
As palavras decantaram,
decantaram,
decantaram.
E em algum momento no movimento do corpo encontraram o caminho certo para sua saída. Lembro então que a língua também tem seus rituais, que talvez eu ainda esteja descobrindo os meus. Que escrever é, como diz Leda Maria Martins (2021), dançar no tempo.
E danças são rituais.
Será quando o corpo esconde as palavras dos meus dedos, ele só está pedindo para sair um pouco? Dançar o corpo e gestar a palavra nunca fez tanto sentido, Leda. Obrigado pela lembrança.




Comentários